Plano foi apresentado pelo Governador Felisberto Navalha no 51º Conselho Consultivo em Tete. Estratégia coincide com interesse dos Emirados Árabes Unidos em instalar primeira refinaria de ouro do país e com projecção de 1.809 kg de produção em 2027. Reservas em ouro valem hoje 507,6 milhões de dólares.
A autoridade monetária moçambicana deu ontem o passo mais ousado dos últimos 10 anos para transformar o ouro que sai de Manica e Niassa em escudo financeiro.
No encerramento do 51º Conselho Consultivo do Banco de Moçambique, que decorre desde terça-feira no Hotel Zambeze em Tete, o Governador Felisberto Dinis Navalha anunciou que o Banco está a preparar um plano operacional para comprar ouro produzido internamente e incorporá-lo nas Reservas Internacionais Líquidas (RIL).
“O banco central está também a preparar, em coordenação com o Ministério dos Recursos Minerais e Energia, um plano para operacionalizar a aquisição de ouro produzido no país, com o objectivo de diversificar as reservas internacionais”, disse Navalha.
O anúncio surge num momento em que o Governador alertou para crescimento económico lento e crédito quase estagnado no país, apesar da recuperação do sector do gás.
SITUAÇÃO ACTUAL DAS RESERVAS EM OURO
Ao contrário do que muitos pensam, Moçambique já tem ouro no cofre do Banco de Moçambique:
- Stock físico: 126.575 onças troy (cerca de 3.937 kg), mantém-se estável desde 2023;
- Valor em Dezembro 2025: 548,2 milhões de dólares;
- Valor em Junho 2026: 507,6 milhões de dólares;
- A queda de 40,6 milhões de dólares não foi venda, foi efeito preço: a onça caiu no mercado internacional no 1º semestre.
Hoje o ouro representa cerca de 10 a 12% das RIL, que andam à volta de 3,5 mil milhões de dólares.
O problema é que Moçambique produz, mas não acumula. Em 2023 produziu 1.257 kg declarados, em 2024 cerca de 1.350 kg, mas estima-se que mais de 3.000 kg saíam ilegalmente por garimpo em Manica, Manica (Mavonde), Tete (Mágoè) e Niassa.
A projecção oficial do Governo no Plano Económico e Social 2027 é 1.809 kg em 2027, um salto de 44%.
OS 3 PILARES DO PLANO
1. Compra directa a produtores licenciados.
O BdM quer criar um mecanismo de compra em meticais, a preço LBMA (London Bullion Market Association) menos custos de refinação, transporte e seguro. Modelo é inspirado no Gana - Gold for Reserves e na Tanzânia, que desde 2023 obriga mineradoras a vender 20% ao Banco Central. Ainda não há decreto, mas MIREME já está a mapear cooperativas.
2. Refinaria nacional - chave para a certificação.
Não se pode pôr ouro de garimpo no cofre sem refinar a 99,99% e com certificado de origem. Em Março de 2026, o MIREME anunciou que investidores dos Emirados Árabes Unidos querem instalar a primeira refinaria nacional de ouro, com tecnologia suíça e padrão LBMA Good Delivery. Hoje todo o ouro moçambicano é refinado em Dubai ou Joanesburgo.
Sem refinaria, o Banco teria de enviar o ouro para fora para refinar, o que encarece em 2.500 a 3.000 dólares por kg.
3. Rastreabilidade e combate ao contrabando.
O BdM sublinha: “O controlo da produção e comercialização do metal precioso será crítico para a credibilidade do mecanismo”. Só será comprado ouro com guia de circulação, certificado Kimberley-like e rastreio desde a mina. Isso implica reforçar a fiscalização da Autoridade Tributária e da Polícia.
POR QUE AGORA? CONTEXTO ECONÓMICO
Navalha aproveitou o Conselho para apresentar outros números:
O Fundo Soberano de Moçambique atingiu 153 milhões de dólares até Outubro 2026*l. Desse valor, 110 milhões de dólares foram injecção inicial em Dezembro 2025 com receitas do gás do Coral Sul, e 43 milhões são valorização. O Fundo é gerido pelo BdM com mandato de longo prazo.
A estratégia do ouro insere-se na mesma lógica do regime especial de reservas obrigatórias anunciado segunda-feira: durante 18 meses, bancos que emprestarem para agricultura, indústria e pescas podem deduzir 110% do valor emprestado nas reservas obrigatórias. Ou seja, o BdM quer empurrar dinheiro para produção real e ao mesmo tempo guardar ouro como colchão.
Analistas ouvidos pela Forbes África Lusófona dizem que se o BdM comprar 500 kg por ano (menos de 30% da produção projectada) a US$ 65.000/kg, gastaria cerca de 32,5 milhões de dólares por ano, mas aumentaria as reservas em ouro em 12% ao ano, reduzindo exposição ao dólar.
O próximo passo, segundo Navalha, é definir mecanismos de aquisição, critérios de qualidade e condições financeiras até ao 1º trimestre de 2027.
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